Monday, May 16, 2011

Hello!!! Dá pra respeitar a gente aqui???

O discurso na minha cerimônia de naturalização foi mais ou menos a mesma coisa que já tinha ouvido antes em duas outras cerimônias dessas que já assisti e mais uma vez me deixou um pouco decepcionada. Tinha esperança de que fosse diferente dessa vez. Não sei porque.

O advogado (procurador da República) que discursou começou por falar que se tornou cidadão americano quando nasceu, ao contrário de nós, 187 pessoas sentadas ali na frente dele, que tivemos que nos esforçar e passar o teste de inglês e cívico (que, por sinal, a maioria dos americanos não passaria se tivesse que fazer). Ele não mencionou todas as taxas que tivemos que pagar, entrevistas, impressões digitais, stress, etc, mas tudo bem, vai ver que ele pensa que é só o teste mesmo. Não duvido nada.

Em seguida, claro, ele falou que os americanos não valorizam o privilégio de terem nascido nesse país maravilhoso já com todos os direitos de cidadãos americanos. E foi aí que entrou a arrogância (mesmo que não tenha sido proposital). Nessa mesma hora eu desviei o pensamento para as coisas que ainda tenho que encaixotar na minha casa, os telefonemas que tenho que dar na segunda-feira no trabalho, o churrascão da gente diferenciada em São Paulo, a enchente do rio Mississippi...

O fato é que eu não acho que é necessário diminuir os países de origem dos outros e dizer que os Estados Unidos são "number 1" numa cerimônia de naturalização. Algumas pessoas que estão ali escolheram morar nesse país mas outras, não, foram obrigadas por alguma razão a deixar seus lares. E mesmo pra quem escolheu, como eu, acho um absurdo ter que ouvir isso. Por que desrespeitar a cultura dos 50 países que estão lá representados e achar que quem se naturaliza americano o faz porque não tinha direitos nem oportunidades em seu país natal?

A cultura da competição é tão forte aqui que não passa pela cabeça do advogado que minha vida no Brasil (só pra dar um exemplo) era ótima, mas eu vim pra cá e acabei ficando por razões que não tem nada a ver com o fato de eu não ter oportunidade nenhuma antes de me ter sido dado o direito de viver "o sonho americano".
A canadense sentada do meu lado, com certeza, não virou americana para desfrutar dos incríveis benefícios do sistema de saúde pública e da licença maternidade dos Estados Unidos. Pra quem não sabe, nenhum dos dois é direito garantido por aqui, estou sendo irônica!!
Sei lá porque uma pessoa vem da Bélgica e quer se naturalizar americana! Mas tenho certeza que não é pela completa falta de direitos ou oportunidades lá. Vai ver que essa pessoa joga baseball e lá não tem time profissional!!!!

Somente no caso de quem estava sendo perseguido, correndo risco de ser morto, quem estava morrendo de fome, quem não tinha direito a voto, nem de expressar sua opinião... Nesse caso, não a dúvida que, em comparação, viver aqui é um sonho.
Pra mim, as oportunidades aqui são apenas diferentes das que eu tinha no Brasil. Aqui eu tenho um carro automático porque é até difícil achar um que não seja. Em Fortaleza eu tinha praia e a melhor comida do mundo (na minha opinião!!). Mas não escolhi ficar aqui porque um carro automático é mais importante pra mim do que comida e praia, de jeito nenhum!!!! O porque de eu estar aqui dá outro post.

A verdade é que pra muita gente o acesso mais fácil a bens de consumo é razão suficiente pra sonhar com esse país. Se alguém acha que é melhor viver aqui porque pode comprar um carro, uma TV de tela plana e um iPod, tudo bem. Mas, normalmente, você está trocando suas raízes culturais, a proximidade da família, calor humano, por essas coisas. Quem quiser faz suas escolhas. Ou não. Porque nem só de aparelhos eletrônicos vive o homem!!!

Alguns imigrantes vêm pra cá com mala, cuia, família, música, comida, toda a sua cultura junto. Porque não querem abrir mão do que tinham e querem mais oportunidades. Observe a comunidade mexicana (que é a maior) ou de outros países da América Latina aqui nos Estados Unidos e você vai entender exatamente o que eu quero dizer. Assim como muitas outras comunidades que criam suas mini-cidades dentro das cidades americanas. Daí as "Chinatowns" e "Little Italys" espalhadas por aí...

Enfim, essa noção de que todo mundo que se naturaliza americano o faz porque acha que tudo aqui é muito melhor, e que está desesperado pra deixar suas raízes pra trás, é obviamente falsa.

No meu caso, enquanto estava sentada ali no Centro de Convenções ouvindo (mais ou menos) o discurso do procurador, não tinha como eu me sentir extremamente grata pelo privilégio de me tornar cidadã americana porque fui salva de uma vida de qualidade inferior lá no Brasil!! Não!! Eu estava feliz por ter tomado essa dificílima decisão de me naturalizar, e por poder ser cidadã de dois países, cada um com seus defeitos e encantos, mas que são (um mais que o outro) "home" pra mim.


Sunday, May 15, 2011

13 de Maio

Centro de Convenções de Albuquerque, NM, EUA, em 13 de maio de 2011.
Aqui estou eu entre Kenneth J. Gonzales (United States Attorney) e The Honorable Alan C. Torgerson (United States Magistrate Judge).

Não perca meu post de amanhã sobre o discurso do Sr. Gonzales na cerimônia de naturalização!

Monday, May 9, 2011

ALIEN NO MORE

Daqui a 3 dias irei a uma cerimônia no Centro de Convenções de Albuquerque e entregarei meu cartão de residente permanente (mais conhecido como "greencard", apesar de não ser verde!) em troca de um certificado de naturalização!
Ao me desfazer do meu "greencard" eu também estarei me livrando do meu A# que é simplesmente o "Alien number" ou "número de alienígena"!!!! É verdade! Depois de 10 anos morando aqui, não serei mais uma "alien" e a sensação é boa!

A razão pra eu ter tomado a dificílima decisão de me naturalizar americana foi simplesmente ter mais liberdade. Por mais que os residentes permanentes tenham muito direitos uma coisa que falta é a liberdade de, por exemplo, passar mais de 6 meses fora do país. Acho que até que faz sentido que pra você ser um "residente permanente" você tem que residir aqui no país tipo... permanentemente!!! Mas pra quem tem família e o coração em outro país é sempre bom ter a opção.
Além disso, estou com uma saudade danada de votar! Acho que porque cresci num Brasil onde não se votava lembro como se fosse hoje a primeira vez em que pude votar, em 1988, depois a grande campanha presidencial de 1989 que deu no que deu mas não é sobre isso que quero falar... Enfim, pra mim votar é SUPER IMPORTANTE e, por mais que esse sistema eleitoral bipartidário não seja lá essas coisas, eu QUERO VOTAR!!!
Nas eleições de 2008 eu fui de porta em porta fazer campanha pros meus candidatos a presidente, senador e representante (equivalente a deputado federal) mas não podia votar e só não foi mais frustrante porque mesmo sem meu voto todos foram eleitos. Mas, minto, foi frustrante, sim! Porque aqui tanta gente dá a mínima pra eleição e, como não é obrigatório e toda eleição é num dia normal de trabalho, quase a metade da população que pode votar simplesmente não o faz!
Eu sei, eu sei, o sistema é falho, a eleição presidencial nem direta é, dá o maior rolo na contagem de votos toda vida, os dois partidos são quase a mesma coisa, blá, blá, blá... mas, mesmo enquanto a gente não fizer alguma coisa pra democratizar o sistema eleitoral, votar continua sendo importante, principalmente nas eleições pro legislativo. E tenho esperança que as coisa mudem. Por isso nunca mais quero ser excluída do processo eleitoral!

Mas voltando a minha vida (quase passada) de alienígena, quer saber do que mais não terei saudade? De ter que notificar o governo todas as vezes (que foram muitas nos últimos dez anos) em que mudei de endereço, de tirarem minhas impressões digitais quando passo na imigração (apesar de passarmos na mesma fila que os cidadãos) ao entrar no país, de pensar em ter que pagar altas taxas pra renovar meu "greencard" em breve, de não poder ter certos cargos, de não poder me candidatar a vereadora, deputada, governadora, senadora, Presidenta da República... oops, presidente vou continuar sem poder ser porque tem que ser americano nato, como o Obama!!! hehehe

Só pra terminar quero deixar registrado que sou contra fronteiras, vistos, e essa babaquice toda, e acho que o mundo está cada vez mais multicultural, multilinguístico, e quanto mais as pessoas viajam, aprendem outras línguas, se mudam, migram, as nossas fronteiras vão ficar cada vez mais sem sentido. Que todos tenham muitas nacionalidades, falem muitas línguas, sejam de todo lugar!
Viva o mundo!!!!

Saturday, April 30, 2011

Só mais um mês em Albuquerque

Agora em abril eu tive que tomar muitas decisões, pedir demissão, entregar o aviso de 30 dias ao proprietário do prédio onde moro, doar um monte da minha tralha, começar a encaixotar o que quero levar comigo...

Também fui visitar minha nova cidade, conhecer o apartamento que encontrei online há quase um mês, já assinar o novo contrato de aluguel e passear pela minha futura vizinhança.

Sem falar no meu processo de naturalização que já está chegando ao fim. Na semana passada fui para entrevista com a imigração, que inclui o teste cívico e de inglês. Agora é só esperar receber a carta com a data da cerimônia. É, em breve terei cidadania americana.

Muita emoção pra um mês só, né?

Pois é, mas abril não foi nada. Amanhã começa o mês de maio e aí é que vai ser!!! Na segunda começo a treinar minha chefe que não tem a menor idéia do que eu faço porque ela está com medo de não conseguir contratar ninguém pra me substituir antes de eu ir embora!

Nesse meu último mês em Albuquerque também vou embalar tudo que quero levar, me despedir de muita gente e, finalmente, fazer a grande mudança, que incluirá uma viagem de uma 20 horas no meu carrinho. Essa parte não me anima nem um pouco, mas fazer o que?

Por isso hoje, o dia que marca o fim do emocionante mês de abril, e amanhã, que é o início do potencialmente estressante mês de maio, eu tirei pra não fazer NADA. Quer dizer, tirando o tempinho que estou usando pra escrever aqui e um texto que tenho que ler daqui a pouco, o resto está reservado para "il dolce far niente".
Então, com sua licença...

Bom fim de semana!!!


Saturday, April 9, 2011

A Minha Bagunça


Na foto vocês podem ver parte da minha sala que, na minha opinião, está uma bagunça completa. Eu estou me preparando pra uma grande mudança e, por isso, tirando coisas de todos os armários pra selecionar o que vai pro lixo, o que vai ser doado, ou o que vai comigo para o meu próximo lar.
Outra parte da bagunça, que não dá pra ver muito bem na foto, é a pilha de caixas vazias que estou colecionando. Como não tenho onde guardá-las, elas estão no canto da sala, mal escondidas por trás da minha mesinha.

Sei que para os padrões de outras pessoas (menos obsessivas, talvez?) isso não é nada, mas está me deixando louca. As caixas no chão, perto do sofá, são meu projeto pra hoje.
O mais triste de tudo isso é perceber o monte de lixo que tenho guardado em casa. Tem certas coisas que não dá pra acreditar que estavam guardadas por tanto tempo. Mas estou me livrando de muita coisa e não é pra abrir espaço pra mais lixo. NÃO!!!
Na semana passada eu esvaziei meu closet e descobri que tinha (não contem pra ninguém) 40 pares de sapatos, incluindo botas, mas não a coleção de havaianas. Isso porque faz um tempão que não compro nenhum par e dei vários pares no final do ano passado. Pois é, desde a triste constatação, eu já levei uns pares pra doar lá no trabalho, mas não diminui o absurdo. Podem me chamar de Imelda. Eu mereço!!!

Como não estou disposta a pagar mais aluguel pra poder abrigar minha tralha, vou continuar me livrando de coisas. O processo com as roupas está complicado, eu doei um mooooonte de coisa e parece que não saiu nada do closet. Fiquei um pouco decepcionada com esse resultado e dei um tempo com as roupas, voltei pros papeis.
Papel é mais divertido. Levei um monte pro trabalho e passei horas triturando extrato de banco, contas antigas, sei lá o que mais coisa inútil que tinha arquivado. Isso mesmo, tudo arquivado, em pastas separadas. Meu entulho é organizadíssimo!!!

Enfim, tenho que voltar ao trabalho porque para esse final de semana ainda tenho programado os CDs, muitos, muitos, todos já devidamente copiados pro iTunes e no meu iPod, mas eu ainda não consegui encontrar um novo lar pra eles. Quer dizer, não encontrei porque não procurei esse novo lar, porque não tive coragem. Ah, o apego...


Wednesday, March 30, 2011

Fechando com Chave de Ouro

Modéstia à parte, hoje eu arrasei.
Tivemos uma auditoria do governo federal lá no St. Martin's. Eles vieram especificamente para olhar o meu trabalho, ou seja, uma papelada horrorosa de dois programas de habitação que eu administro. A verba é de quase 1 milhão de dólares e eu sou a única pessoa no departamento.
Esse tipo de auditoria não acontece todo dia. Há muitos anos o HUD -Department of Housing and Urban Development (Ministério da Habitação dos Estados Unidos) não fazia tantas auditorias. Estão fazendo agora porque vão precisar cortar programas e, pra isso, têm que ter base pra escolher o que fica e o que é sacrificado.

A auditora chegou de mau humor, com vontade de encontrar defeito, porque, afinal de contas, é isso que ela faz! Escolheu o nome de 14 clientes (mais ou menos 10% do total) e eu tive que ir mostrando toda a documentação, olhando pasta por pasta.
Depois do primeiro cliente, ela me agradeceu por ter tudo em ordem e facilitar o trabalho dela e começou a reclamar das outras organizações que ela visitou. Coitada! Deu até pena porque o trabalho dela deve ser um saco, principalmente quando numa auditoria ela encontra tudo zoneado e tem até que penalizar a organização.
Depois de uns 8 clientes, ela disse que não precisava ver mais nada.
Ela tinha planejado um ou dois dias, calculando tempo pra gente sair desesperado procurando documentação "perdida" e outras coisas divertidas do gênero.
Minha auditoria durou 2 horas e meia!!!
A auditora que entrou bufando no meu escritório saiu me agradecendo mais uma vez e disse que eu tinha deixado ela feliz! Imagina, feliz!!! Ela disse: You made me happy! Se vocês vissem a cara com que essa mulher chegou no meu escritório, entenderiam que fazê-la feliz foi quase um milagre.

Então, sem falsa modéstia, o resumo da ópera é: eu administro dois programas sozinha e, graças a esses programas, 135 famílias que viviam por aí dormindo em carros, na rua, em abrigos noturnos, hoje têm onde morar. Legal, né?
Impressionar numa auditoria federal é importante não só pra manter a verba para ajudar essas pessoas, mas também pra poder receber mais verba e ampliar os programas no próximo ano.
Fiquei feliz especialmente porque, depois de 5 anos, vou, muito em breve, deixar esse trabalho. Pelo menos sei que estou deixando tudo em ordem.
Com esse resultado, daqui que eles resolvam fazer uma outra auditoria dessas por lá a pessoa que vai me substituir já terá aprendido o trabalho.
Estou aliviada e feliz.

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Não me pergunte como eu fui parar nesse trabalho porque nem eu sei bem o que aconteceu. Uma coisa levou a outra e, apesar da minha formação em jornalismo, línguas e literatura, hoje tenho um cargo que une serviço direto à parte mais marginalizada da população desse país e contato constante com a burocracia do governo americano. Tem sido uma experiência interessante.

Wednesday, March 16, 2011

Velho Amigo


Hoje lembrei do urso que ficou me olhando um tempão no zoológico de Munique, numa tarde de outono em 2007.
Quando voltei dessa viagem à Alemanha eu passei meses olhando pra ele que virou papel de parede do meu laptop. Parecia que ele estava tentando me dizer alguma coisa e tomando conta de mim, numa época meio turbulenta da minha vida.
Talvez por isso hoje, no dia em que comprei mais uma passagem de avião, que vai me levar ao início de uma vida nova em outra cidade, pensei no urso o dia todo e quando cheguei em casa fui procurar a tal foto que tirei no dia em que a gente se conheceu.
Acho que ele me dá uma sensação de proteção e tranquilidade. Então resolvi mantê-lo por perto de novo. Estou precisando e aqui está ele. Apresento a vocês meu amigo urso!